Pros e Contras - EM NOME DE VALORES

Ora bem começo por dizer desde já que o título do programa é no mínimo patético pois não se trata de discutir valores mas sim direitos. Colocar este título é querer forçosamente dizer que em função dos valores de A, B, ou C, D não poderá fazer o que os seus valores lhe ditam. Basicamente, numa sociedade supostamente laica a Igreja, por exemplo, não poderá tecer quaisquer comentários sobre a mesma dado que se encontra fora dos "valores" da sociedade laica. Acho por isso que o título não é mais nem menos que tentar por o tom do debate para um que apele à emoção das pessoas (tal como se faz no futebol quando se apela ao adeptos que apoiem de alma e coração a selecção, por exemplo).

Tal como foi feito no debate do aborto, tenta-se confundir as massas usando de artifícios emocionais para se levar avante a opinião que nos é mais favorável. Penso que isto é feito apenas por uma razão: falta de argumentos de quem é contra. No debate, ouviu-se falar em coisas como: casamento entre pessoas do mesmo sexo é um perigo para a família; o casamento pressupõe descendência (leia-se filhos) como meio de propagação da espécie.

Pois bem, sem querer alargar muito o post apenas pergunto de volta: e as pessoas heterosexuais que partem para o casamento sabendo que não vão ter filhos, quer por decisão pessoal de um ou ambos os conjugues ou por questões de natureza biológica como a infertelidade? Pelos mesmos raciocinios, então estas pessoas não devem ter permissão para casar pois não respeitam os preceitos base da natureza do casamento. Não terão filhos biológicos logo a continuação da espécie não está de todo assegurada.

Também me parece que a tentativa, no debate no programa e mesmo no debate fora dele, de se tentar não trazer a religião à discussão é no mínimo ridícula. O problema base de quem se opõe ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma questão de significado religioso da palavra casamento. Os valores invocados pelos opositores, familia, lei natural etc. são valores que têm na sua origem a concepção da Igreja Católica e outras instituições religiosas (e não, a base destes valores não são as religiões. A Igreja Católica não é a "Igreja Cristanica". O cristianismo deu origem a uma criação do Império Romano à qual se deturpou a cristandade para servir um meio político!). É absolutamente necessário que, para além de não invocar valores e ideais de casamento ficcionais, que se retire a questão dos valores deste debate (tal como eu achei que se deveria retirar a questão dos valores do debate sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez). O debate é sobre direitos LAICOS, decorrentes de todos os seres humanos independentemente da religião e seus valores.

Tentar trazer ao debate os valores religiosos e depois encaminhar o debate para coisas como poligamia e relações entre pais e filhos é saber que se não tem argumentos então dispara-se para os lados e cria-se a noção de "aí Nossa Senhora que os homossexuais vão tomar conta do mundo e nos vão comer as criancinhas". É a eterna ideia que o Nazismo usou contra os Judeus: a demonização dum grupo social instaurando o medo (note-se que se tenta fazer o mesmo neste momento contra imigrantes sendo eles agora a fonte de todo o crime e mal da Europa).

E termino por aqui hoje para não me alongar mais e continuarei o tema mais à frente noutro post que espero publicar em breve. Deixo, contudo, umas notas sobre o debate em si e algumas pérolas.

Gostei de ouvir coisas como os bissexuais terem forçosamente de se casarem com duas pessoas. O cavalheiro intelectualmente embrutecido que proferiu tais palavras certamente confundiu o intuito do prefixo bi- que de facto é um prefixo de dualidade mas não significa que os bissexuais se apaixonem as duas pessoas de cada vez.

Também gostei de presenciar que, de facto, todas as pessoas que falaram pelo não são pessoas que seguem de alguma forma a confissão Católica. Tal como no aborto vê-se bem o quanto a Igreja Católica faz bem à capacidade evolutiva dos conceitos da mente humana. Ainda neste grupo a hipócrisia e o cinismo foram de facto reis. Quando se quer dizer uma coisa mas sabe-se que não se pode dizer porque não é socialmente aceitável e que é meio caminho para se destruir os próprios argumentos recorre-se a estes dois instrumentos.

Passada agora a ironia, devo dizer que fiquei particularmente impressionado com a qualidade do debate pelo lado do sim. Argumentos, dados, factos e a falta de ataques pessoais e coisas afins surpreenderam-me. Por outro lado, com a excepção do representante da Igreja Católica que, por vezes históricamente errado (ou meramente omisso), mas de facto ajudou a elevar o nível do debate pelo lado do não, coisa que TODOS os outros intervenientes não o souberam fazer. Foi uma pena mas quando se fala por ódio, recalmentos e preconceitos do tipo "foi assim que me ensinaram e é tradição" só se pode esperar isto. Gostaria de ter ouvido argumentos válidos do lado do não que não estivessem ligados ao dogma Católico.

"Small is the number of people who see with their eyes and think with their minds." - Albert Einstein.

1 comment:

Vitor said...

Eu tinha-te dito antes do programa que iria precisar de um chá...
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Concordo plenamente com tudo o que escreveste, pois também é a minha opinião. Tudo o que era argumentado pelo NÃO baseou-se basicamente no "sempre assim foi e é tradição"... Pois também é tradição o casamento ser a maior hipocrisia institucional, casam-se para manter o estatuto social , filhos como flores num jardim (sim, porque a maioria ainda considera que a partir de uma certa idade não casar parece mal, como se fizesse diferença!)... e depois andam por ai a meter os cornos uns aos outros, as esposas a beber leitinho alheio, o corno é manso e por ser manso o "boi leiteiro" é outro... e eles que no grupo de amigos rebaixam as suas gajas como quem cola um tunning ao chão, enquanto dizem "comi as gajas A, B e C" pelo que na realidade, dividindo por 5 a conta é capaz de dar um resultado mais realista.
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Falam tanto em valores, valores para aqui, valores para ali. Mas e o que são os valores, o que é isso de valores? Algo abstrato não?! De abstrato mais compreensivel e que todos entendem só Picasso ou Mondrian...
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Sinceramente a lei deveria mudar e o termo "casamento" proibido e com pena de prisão efectiva a quem o proferir, sério. Dizem pode ser tudo rigorosamente igual, todas as vírgulas e pontos finais e afins, tudo, e depois no fim dizem "só não lhe chamem casamento". Como dizem chamem-lhe "vernhake", pois! mas se em tudo são iguais estas palavras e mesmo o conceito então são obrigatoriamente sinónimos! creio eu!, mas também não é preciso tirar um curso em Coimbra para perceber isso! Ás tantas vamos passar a ter de fazer uma alteração profunda na língua portuguesa! e uns quantos mais acordos linguísticos! enfim ... E deixar o tal "casamento" para cerimónia na igreja cheia de flores e "vernhake" para a conservatória do registo civil, uma proposta democrática, limpa e simples...
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Não tenho religião e foi quando deixei de ter, que a minha Fé naturalmente cresceu. Tenho Fé e por isso mesmo digo muitas vezes, que Deus tenha misericórdia da vossa alma, porque eu não tenho.
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Eu sei que sou diferente** lol, como diziam os "normais", que nós gays não somos os "normais", e a questão que se põe é, o que é ser normal, mais uma "fotocópia humana"? Dizem que não devemos por em causa conceitos e transforma-los, que não se deve por nada em causa. Mas a verdade é apenas uma e ninguém a pode negar, ainda viveríamos no paleolítico se não tivessem existido na história da humanidade seres humanos que questionassem a verdade pura em tudo e em todos.
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Uma pessoa inteligente é aquela que tem a capacidade de ver e pensar por si, e por em causa mesmo coisas certas e correctas porque vai tirar as conclusões certas e as mais honestas e de verdade absoluta, e não uma mera verdade que é esta verdade relativa que é a vida em sociedade.
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Uma pessoa boa é toda aquela que tem a capacidade de viver o sofrimento e a tristeza do outro e viver feliz quando sente que todos à sua volta também estão de bem com a vida. É bom quem sabe sentir o que o outro sente.
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Escreveste algo do Alberto lol Albert Einstein - "Small is the number of people who see with their eyes and think with their minds." - É curioso como à muitos anos vivemos na era da informação e como esta se encontra em qualidade e abundância, mas muito poucos fazem desta uns instrumento de valorização enquanto humano. Einstein para quem não sabe, fica a saber, era um fiel em Fé a Deus, assim como outros génios.
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Aprendi na catequese, "amai-vos uns aos outros como a vós mesmos". O amor é algo incondicional e não tem porquês. Todas as famílias têm gays, lésbicas e bissexuais, esta é a verdade absoluta, e quem disto se rir, só ri da sua própria ignorância. Muitos são pais, mães, avôs e avós, primos e primas, irmãos ou irmãs, filhos ou filhas. Um pai ou uma mãe que não aceite o seu filho ou filha por gostar de alguém do mesmo sexo, nunca foi pai nem mãe e eles é que perderam um filho(a) e não o contrário. Um irmão ou uma irmã que não aceite o seu irmão ou irmã por ser gay ou lésbica, nunca foi irmão. Família é isso mesmo, amor, gostar por gostar, quando o gosto ou o amor têm razões, então os sentimentos simplesmente não existem.
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** Eu sou diferente lol sim sou, não por ser gay, mas por não acreditar na sociedade, à uns anos decidi - e a minha sexualidade pouco ou nada teve relacionado - que não levaria a vida de que todos teriam orgulho, ser como todas as outras pessoas (k medo! lol). Eu só acredito que se deve viver como se gosta desde que não se prejudique ninguém. Eu acredito viver e vivo "cagando" para o que os outros pensam de mim, porque a mim só me interessa viver de bem com a natureza e sendo feliz partilhando esta felicidade. Quando todos dizem "porquê?" eu há muito que faço outra questão que me leva a respostas concretas e outras questões que me fazem tornar um ser melhor e mais justo para tratar todos os outros de igual modo, com a mesma liberdade, respeito e igualdade entre todos, a questão é sempre "PORQUE NÂO?!"

Para quem não sabe a homossexualidade não se escolhe, do mesmo modo que não se escolhe a cor da pele, a etnia ou a família biológica, do mesmo modo que ninguém escolhe ser heterossexual.

A minha maior frustração é em pleno século XXI, a população portuguesa (em particular) serem todos um bando de burros, ignorantes e patéticos catéticos (sobretudo as gerações mais novas), e pensam que "são os maiores do mundo", genericamente falando

Tenho tanto entalado na garganta, e não é uma pila garanto lol, ok não escrevo mais...

abraço :)

e obrigado Deus por me teres deixado ser Gay e puder levar no rabinho :D e na próxima vida / encarnação quero mais do mesmo ;)