Alegrias da minha vida...



Há coisas que eu gosto de ver. Coisas que me dão uma alegria particular. Uma alegria perversa, certamente, mas consegue sempre arrancar-me um sorriso.

Uma das coisas que em particular me dá vontade de rir é ver/ler/ouvir velhos decrépitos a invocarem a sua idade como razão para os novos os seguirem sem mais nenhum argumento. A isto dá-se o nome de argumentum ad verecundiam ou argumentum magister dixit, vulgo argumento de autoridade. Ou seja, estamos perante uma falácia. Esta falácia é uma das minhas favoritas pois atesta a imbecilidade de quem a diz e de quem a ouve e acredita.

Outra coisa que me faz esboçar, no mínimo, um sorriso é ver a direita e seus apoiantes a atacarem a esquerda e o funcionalismo público quando essas mesmas pessoas vivem do funcionalismo público. Ver alguém a defender a privatização de algo quando ela própria trabalha no público, com emprego garantido e a ganhar mais que no privado, é sempre uma coisa engraçada. Será que para se apoiar cegamente a direita envolve estar num estado de senilidade completo ou ser simplesmente burro? Estas pessoas que se atacam a elas próprias são umas das alegrias dos meus dias.

Melhor do que isto, só ver pessoas de "direita" a atacarem a "esquerda" quando foi graças a políticas de "esquerda" que chegaram ao onde chegaram e têm o emprego que têm.

Como se costuma dizer: pimenta no cú dos outros é refresco.

Agora, a verdadeira alegria, diria mesmo orgasmo intelectual, é ver uma única pessoa numa pequena argumentação, passar por estas fazes todas. Mas minto. Há uma coisa melhor: ver uma hoste de gente na mesma situação bater alegremente e euforicamente palmas ao primeiro. Isso é sim o verdadeiro orgasmo intelectual.

A única coisa que eu me pergunto é quanto intelectualmente embrutecido se tem de estar para não se perceber o ridículo em que se cai quando se fazem argumentos destes que atacam, em primeiro lugar, o argumentador?

Mas, pronto, vá. Não parem. Assim eu poupo imenso dinheiro em idas ao circo ou a espectáculos de stand-up comedy.


Receita para o Estado mas não para os consumidores?



Esta coisa da vinda do FMI e/ou FEEF sempre me fez muita confusão por muitos e variados motivos. O mais básico é o facto de estes senhores não virem cá ajudar ninguém a não ser eles próprios. Eles vêm cá com o único propósito de arrecadar mais uns milhões em juros. Os seus investidores assim o exigem e como estes investidores até estão com problemas de liquidez uns dinheiritos a mais até que dão jeito. 

Mas, juros à parte, o que mais surpreende nisto tudo é o facto de se vir sugerir que se salve uma divida fazendo outra. Repare-se que se anda (ou andou já que agora não se tem, misteriosamente, falado nisso) a chamar de burros às pessoas e famílias que contraem empréstimos para cobrir outros empréstimos. Não é a solução, diz-se. Não é incorrendo em mais dívida que se resolvem as coisas. A solução passa, primeiramente, por uma renegociação dos empréstimos. Faz lógica não é? Então expliquem-me uma coisa... Se faz sentido para nós, "estúpidos" cidadãos, porque não faz sentido para o Estado? Então chama-se "burro e estúpido" a quem faz um empréstimo para cobrir outro empréstimo e, ao Estado, propõe-se que faça um empréstimo para cobrir as suas dívidas? 

Será que sou eu que estou a perder um qualquer pormenor no meio disto tudo?

O que o país precisa


Portugal se quiser sair da situação em que se encontra precisa de fazer uma séria de mudanças quer a nível político, quer a nível sócio-cultural. Por ordem de prioridades, deixo aqui o que penso ser preciso para que se mude esta carcaça velha em que se tornou Portugal. Já agora acrescento que não guardo esperanças de que alguma coisa irá mudar.


1- Portugal precisa de se renovar socialmente. A sociedade civil tem de perceber que o seu destino está nas suas mãos e não nas mãos dos outros. Tem de haver mais empenho e participação dos portugueses na vida política, quer ao nível dos partidos, quer ao nível de movimentos cívicos e outras organizações. Não quero dizer com isto que se façam mais greves a torto e a direito e sempre pelos mesmos. Não quero dizer com isto que se venha para a rua fazer umas "festas" onde se insulta tudo e todos, de maneira por vezes vil, chamando-lhes "manifestações" e "protestos". Quero dizer com isto que tem de haver mais envolvimento nas decisões e posições de partidos. Eles só mudam as suas posições quando quem lá está dentro é forçado a mudar. Para isto é preciso que haja mais gente envolvida. A sociedade civil tem de fazer uso dos mecanismos legalmente previstos na constituição ou, então, fazer com que se criem outros que possam faltar.

Em suma, o cidadãos deste país têm de fazer uso a esse nome. Todos têm de deixar de dizer mal e passar a fazer algo. Chega de protestar e na altura devida nada fazer. Há que passar das palavras às acções, não em greves ou acções espontâneas mas todos os dias nas nossas acções diárias. A velha desculpa de "eu não falo de política porque não gosto e não me interessa" foi o que nos levou a esta situação e é o que nos mantém nela. Talvez seja altura de se ir para o café a discutir como fazer melhor que os políticos em vez de se ir a falar na novela, futebol ou no puro insulto a tudo e todos.


2- Tem de haver uma racionalização da educação em Portugal. Tem de chegar ao fim a "escola depósito" de crianças e jovens. A escola tem de ensinar e tem de ensinar aquilo que precisa de ser ensinado doa a quem doer. Quem não gosta ou não é capaz, que se retire e dê lugar a quem sabe e quer fazer o que tem de ser feito. No seguimento disto, temos de levar para as escolas aqueles que são capazes para dar aulas e tirar os que lá estão porque não arranjaram nada melhor para fazer ou porque tiraram um curso que só serve para aquilo mas que não é a sua vocação profissional. Tem de se dar aos alunos que querem aprender as condições para o fazer e tirar da escola os que não querem. Esses últimos que se desenrasquem da forma que quiserem e acharem mas conveniente (e se optarem pelo crime, temos de dar meios a quem de direito para os levar à Justiça e pô-los atrás das grades) mas, se não querem estudar, não podem prejudicar quem quer. 

O Ensino Superior tem de ser forçado a redireccionar o seu trabalho para servir o país, a sociedade civil e a economia e não quem lá trabalha. Os professores do Ensino Superior têm de deixar de usar as instituições públicas onde leccionam para a auto-promoção ou como refúgio profissional. Também aqui é preciso trazer os melhores e/ou os mais capazes e não falo apenas na média com que terminam o curso mas sim com um percurso profissional que os habilite a proporcionar a melhor transmissão de conhecimentos face à realidade da área em questão. Não podemos ter professores a dar aulas hoje como as davam há 25 anos atrás, pois o mundo muda todos os dias e é preciso que haja uma adaptação constante aos novos factos científicos e sociais. Não podemos ter apenas, num ensino profissionalizante, teóricos e académicos que nunca saíram da sua sala de aula ou do seu laboratório. Tem que haver complementaridade entre os dois por forma a que os alunos não saiam de lá enciclopédias de carne ou meros papagaios.  


3- O mundo empresarial tem de mudar apoiando-se, entre outras coisas, nos dois pontos anteriores (aposta numa verdadeira qualificação dos trabalhadores e numa autonomia face ao poder "paternal" do Estado). Os portugueses têm de ser mais audazes no seu mundo profissional. Os portugueses têm de deixar para trás a ideia de arranjar um trabalho para a vida a trabalhar para outro. Tem de haver empreendedorismo (esta bonita palavra de que tantos falam mas que poucos fazem) da parte dos trabalhadores. Mas porque não havemos de ter todos em mente, um dia, termos a nossa própria empresa, fundando-a ou querendo chegar à direcção de uma grande empresa já existente? Tem de acabar a ideia de se apontar para os quadros médios e mediocridade como objectivo final profissional. 

Os empresários actuais têm também de aprender a inovar e a gerirem as suas empresas, não como a mercearia da esquina, mas sim como uma entidade económica capaz de crescer nos tempos bons e de se aguentar nos tempos maus. Não se pode continuar com a ideia de que a empresa é para dar lucro amanhã para se poder construir uma vivenda. Os empresários e gestores têm também de mudar o paradigma de remuneração dos seus funcionários, não querendo que estes trabalhem no seu melhor pelo menor preço possível. Os salários e remunerações têm de reflectir o valor real do trabalho de cada um. Também tem de acabar a ideia do "trabalho" não qualificado barato como escolha preferencial para os quadros das empresas. Tem de se apostar na formação dando-a aos que já lá estão e indo buscar quem a tem. A questão experiência/formação tem de estar no cerne da decisão de quem se contrata e não o valor do salário. 


4- O Estado tem de ser redefinido. Tem que se decidir para que é que se quer o Estado e o qual o seu papel na sociedade portuguesa. Estado mínimo ou Estado Social? É importante definir isto tudo e depois fazer as mudanças e ajustes necessários, com coragem e doa a quem doer sem se ficar refém dos interesses individuais seja de quem for. O Estado tem de saber qual a sua missão e fazê-la da maneira mais eficaz. Para isto precisa de ir buscar os melhores e não os amigos. Precisa de ter capacidade de renovação de quadros por forma a se tirar quem nada faz e trazer quem faz. Sobretudo, o Estado, tem que remunerar os seus funcionários de acordo com o valor do seu trabalho e não a chapa sete, tratando bons e maus da mesma maneira. 


5- A sociedade portuguesa tem de se habituar a conviver bem com o mérito pessoal/profissional dos seus indivíduos. Há premiar e valorizar o mérito e não as amizades ou conveniências pessoais. O paradigma social do supérfluo e conveniências tem de acabar. A cunha tem de ser criminalizada do ponto de vista social, nem falo do ponto de vista legal. A idade tem de deixar de ser um posto por ela própria. Certo que, geralmente e por uma razão de lógica (embora, por vezes, ela seja uma batata), a idade trás experiência mas experiência sem conhecimento para a usar bem de nada serve. A sociedade do mérito tem de ser o objectivo final e tem de se dar (ponto 2) a possibilidade de todos poderem ter mérito em alguma coisa. Sobretudo, há que parar os típicos actos de sabotagem do mérito. A mesquinhez de, quando não se consegue dizer/fazer melhor que alguém, se atacar o carácter da pessoa tem de acabar. As pessoas têm de ganhar uma coisa muito importante: respeito, a começar pelo respeito por elas próprias.

Estado arrecada só 23% da receita prevista nas SCUT



Estado arrecada só 23% da receita prevista nas SCUT - JN

Esta notícia do JN, só pelo seu título, já dá vontade de rir. Quando se fazem autoestradas a ligar aldeias é o que dá.

Nota de edição: E mais um que o blogger se "esqueceu" de publicar. 

Passos anda a marcar passo



Gostei de ouvir Passos Coelho a exigir que se faça um auditoria às contas públicas Portuguesas. De facto, precisamos de saber mesmo quanto devemos para podermos saber como agir no futuro. No entanto, Passos Coelho, mais uma vez, não sabe bem em que buraco se está a meter e fala só do que lhe interessa falar. 

Uma auditoria às contas públicas não se pode ficar pelos anos do PS de Sócrates. Uma auditoria às contas públicas tem que ir até aos governos de Cavaco Silva. Seria muito interessante ver exactamente quanto receberam os governos de Cavaco da UE (então CEE) e quanto, quando e onde foram usados. Seria também interessante ver como é que, com tanto dinheiro a entrar no país se consegue ter deficits como os que Cavaco teve.

Seria interessante saber exactamente quanto nos custou a inercia do Guterrismo e onde se espetaram os fundos da UE que também recebemos nesse tempo. Também era importante saber o que se gastou e onde para se ter acabado o ciclo de Guterres com uma quebra do limite do deficit de 3%.

Verdadeiramente interessante seria saber que contas andou Manuela Ferreira Leite a fazer para ter vendido tudo que era do Estado (de todos nós, portanto), ter cortado em todo o lado e aumentado os impostos e mesmo assim ter acabado com um deficit superior aquele que encontrou quando chegou ao governo.

Isto são tudo coisas interessantes que Passos Coelho não refere, preferindo entrar na demagogia de achar que os males do país começaram e acabarão com Sócrates. Passos esquece-se que não é nenhum messias e que é líder de um partido que também esteve no governo. Pior ainda, é líder do único partido que teve um líder no cargo de Primeiro-Ministro e que o abandonou por um cargo internacional deixando o país numa situação tão má como a de hoje com a diferença que o mundo na altura ainda não tinha acordado para a realidade das trafulhices do sistema financeiro mundial. 

O que teria Passos para dizer se se provasse, como penso que se provaria, que o mal de Portugal não é só de Sócrates mas sim de todos os que lá estiveram antes? E se se provasse que o actual Presidente da República foi o homem que verdadeiramente hipotecou o futuro do país desbaratando as finanças públicas com obras inúteis e megalómanas para um país sem economia para as manter?

Como penso que não teria nada de bom para dizer a não ser mais aldrabices, tais como aquelas que Sócrates professa, tenho que chegar à conclusão que Passos está a fazer jogo político e a empurrar as culpas para onde pode para ver se se livra da encrencada que nos meteu a todos.

Não bastava termos um Presidente que, enquanto chefe de governo, nunca se enganava e raramente tinha dúvidas, um Primeiro-Ministro que só se mete em trapalhadas (para não dizer pior), um antigo Primeiro-Ministro que foge a meio do mandato, ainda temos de ter agora um candidato a Primeiro-Ministro que se inspira em Manuel Alegre e nos vem com lirismos.

Nota de edição: Por alguma razão este post não foi publicado embora estivesse devidamente agendado para dia 14 de Abril. Como só agora reparei nisso, só agora é que pude publica-lo. As desculpas pelo post descontextualizado (ou não) da sua devida data.

Jornalista confuso ou FMI enganado?



FMI quer que casas fiquem mais caras - Economia - DN

Antes de falar do conteúdo da notícia vou falar da forma dela. Este título e o conteúdo da notícia é um exemplo do mau jornalismo que se faz em Portugal. Repare-se que o título é o que é mas algures no meio do texto da mesma pode-se ler "O Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia (UE) vão propor alterações ao mercado da habitação em Portugal, substituindo o conceito de casa própria pelo arrendamento" e mais à frente ainda se pode ler também "Os peritos, Governo incluído, argumentam que os preços têm margem para subir - há muitas rendas que não reflectem o real valor das casas, o mercado está desvalorizado e as famílias estão demasiado endividadas e amarradas à prestação da casa."

Ora bem, ponto número um. Afinal o título é enganador porque o jornalista dá a entender que se está a falar no valor das casas para venda quando, na realidade, se está a falar do valor das rendas. Depois não percebo bem se é o jornalista que não sabe o que escreve se é o governo e FMI que não sabem o que dizem e, de tal forma confundiram o jornalista que este dá o dito por não dito numa trapalhada de texto.

Então começa com o título a dar a entender que se quer subir o valor das casas para venda. Depois já se está a falar é do mercado de arrendamento e finalmente percebemos que a solução para dinamizar o mercado de arrendamento é subir as rendas que, já por elas são, em muitos casos, excessivas. No final fiquei confuso e tive que voltar a reler tudo para tentar fazer algum sentido disto.

A conclusão a que chego é que o FMI se está a enganar no mapa e julga que está a ajudar Espanha. Então os senhores propõem um aumento das rendas como meio para dinamizar o mercado? Mas que rendas querem eles subir? As de 300 a 600€ que são pagas pela classe média, a qual já está a pagar um valor semelhante para uma prestação da casa e está, portanto, fora do mercado de arrendamento? Ou será que querem subir estas rendas para tornar os empréstimos bancários mais atractivos? Já agora, estes senhores sabem qual é o rendimento médio de uma família da classe média? E se não estão a falar destas, as quais já estão com preços justos, querem subir quais? As inferiores a 200€ ou será que estão a falar daquelas de 10 a 100€ pagas por pensionistas que ganham 200€ ou menos de reforma?

Já agora, expliquem-me como se eu tivesse trocado o Ensino Superior por um curso Novas Oportunidades, em que é que o mercado de arrendamento vai permitir uma melhoria das condições económicas ou até vai ter impacto nas contas públicas, especialmente tendo em conta que o que se dá a entender é que se querem subir as rendas? Sinceramente não percebo. Tendo em conta que o intuito não é claramente levar as pessoas a comprar casa, não percebo como subir as rendas vai incentivar as pessoas a procurarem arrendar casa. É que se fosse eu, entre arrendar por 500€ uma casa, se calhar optava por comprar e pagar algo semelhante por algo que no final será meu.

Assim sendo, volto à dúvida original. Será que não ensinaram ao jornalista como escrever uma notícia ou será que são estes senhores do FMI que se enganaram no país? Ou é uma ou outra ou, se calhar, sofrem ambos de um embrutecimento intelectual para dizerem esta quantidade de disparates.