O triunfo da mediocridade - Opinião - DN


O triunfo da mediocridade - Opinião - DN

Se bem que eu compreendo onde o autor do texto acima linkado quer chegar e, não indo acusá-lo de homofobia, digo que o senhor precisa de rever os seus conceitos de "casamento" e estudar um pouco mais da sua história e função social. Não o acusando de homofobia, portanto, acuso-o de ignorância ou demagogia pura. Mediocridade provou ele ter quando escreveu o que escreveu e pior ainda, mais medíocre foi o editor que tal artigo deixou que chegasse edição online do Diário de Notícias.

Ao contrário do que ele diz, o casamento não foi sempre a mesma coisa. Antes pelo contrário, sofreu mutações de acordo com a cultura e época em que se inseriu. Se fomos perguntar a um Babilónio a sua noção de casamento, certamente que ela será diferente da de um Grego clássico, o qual por sua vez terá uma ideia diferente do que é casamento para um Cristão e podia-se continuar por aí fora. Aliás, mesmo dentro do universo Judaico-Cristão em que nos inserimos, o casamento foi sofrendo mutações e finalidades.

A noção de que o casamento é exclusivamente para procriação é algo debativel e desafio qualquer um a comprovar-me isso mesmo com textos históricos. Poderá ser essa a finalidade que se deu em determinada altura dentro de uma particular cultura, mas desafio a provarem-me que o mesmo foi sempre assim. Todas as culturas tiveram e têm a sua noção de casamento. Um Muçulmano verá o casamento com uma visão diferente da de um Cristão. Um Hindu idem aspas.

Está na altura de deixarmos cair a farsa e a patética desculpa da historicidade e imutabilidade do conceito de casamento.

É de extrema importância que deixemos de facto de confundir o casamento visto aos olhos religiosos da instituição que ele representa. Não vamos tentar dizer que, por exemplo, os parâmetros do casamento Cristão são algo válido desde sempre, quanto o Cristianismo tem apenas 2000 anos e o Catolicismo ainda menos.

A querermos manter o casamento, mesmo que seja só o Judaico-Cristão, com as suas finalidades e modalidades, então teremos de começar por remeter as mulheres para o estatuto de membros de segunda. Depois teremos de voltar a proibir o divorcio. Depois, e entrando pela questão de reprodução, então teremos de proibir e anular os casamentos dos casais em que um dos conjugues seja infértil. Não me parece plausível semelhante proposta. Tenho a certeza que as mulheres não o aceitarão de animo leve, se é que o aceitarão de todo.

Pessoalmente, apenas por questões etimológicas, preferiria que se chamasse outra coisa à união de duas pessoas do mesmo sexo, no entanto, recuso linearmente usar essa desculpa como meio para impedir a união de duas pessoas do mesmo sexo e privá-las de perseguirem a sua própria felicidade.

Deixemos a hipócrisia de lado e ponha-se a religião com o objectivo de cuidar das almas e não de impor as suas visões extremistas, minimalistas e, sobretudo, opressivas à sociedade em geral e à maneira como ela vive. A liberdade que hoje temos na Europa começou quando alguns ousaram enfrentar o poder da Igreja Católica. Não deitemos fora tão facilmente essas lutas. Os ideias da Reforma, da Revolução Francesa e outras merecem perdurar. Sempre que a religião foi usada como instrumento de regulamentação e poder social e mesmo politico trouxe sempre dissabores, alguns dos quais, ainda perduram. A título de exemplo, cito o caso Português em que a relação incestuosa entre o Estado-Novo e a Igreja Católica permitiu que o regime opressivo se mantivesse por mais tempo. As religiões, infelizmente, não libertam almas. Pelo contrário prendem-nas e oprimem-nas. As religiões são o instrumento de estupidificação das sociedades e dos povos. Não me venham com tentativas de desmentir isto porque, pela ciência católica e vontade da Igreja Católica, por exemplo, ainda se defenderia que a Terra é o centro do Universo.

Libertemos as nossas almas dos dogmas religiosos e vivamos em liberdade intelectual e espiritual. Live and let live! Vivam e deixem viver!

Na tentativa, por ventura vã, de tentar que haja alguma lucidez sobre este assunto deixo o seguinte link:
Casamento @ Wikipédia (EN)

3 comments:

Lelé Batita said...

É assim mesmo. Texto muito incisivo, como convém.

Lelé Batita said...

"Casamento só para fins de procriação" - patacoada de Manuela Ferreira Leite.

Elenáro said...

Obrigado Lelé Batita! :)

E sim, é muita Manuela Ferreira Leite. O problema é que a própria MFL é muito de outra coisa...