Porque é preciso ter cuidado com o que se diz.

 José Cerca, do blogue Do meu mirante publicou um texto de João Pereira Coutinho, publicado no Expresso do passado dia 31 de Dezembro, sobre o casamento homossexual.

Transcrevo o texto o qual pode ser consultado no blogue acima referido aqui.


Uma agressão somente à religião Católica?

Não (não existem casamentos entre indivíduos do mesmo sexo em nenhuma religião)

Uma agressão somente à Civilização Ocidental?

Não (não existem casamentos entre indivíduos do mesmo sexo em nenhuma civilização)

Uma agressão somente à humanidade?

Não (não existem casamentos entre indivíduos do mesmo sexo em nenhum grupo de humanos)

Uma agressão à Natureza?

Certamente não há no Reino Animal situações de acasalamento entre indivíduos do mesmo sexo.

Casamento “gay”

Abomino histerias; E o casamento “gay” é histeria.

Segundo dizem, recusar o casamento a pessoas do mesmo sexo é uma “discriminação”. As pessoas dizem a palavra – “discriminação” – e esperam que eu me comova.

Não me comovo. Claro que é uma discriminação…E daí?

Todos os dias, a todas as horas, sobre as mais variadas personagens, a sociedade exerce as suas “discriminações”.

Se, por mera hipótese, eu pretendesse casar com duas mulheres, estaria impedido pela força da lei. 

Não será isto uma “discriminação”?

Por que motivo o Estado impede que três adultos que se amam possam construir uma família em conjunto?

Arrisco hipótese: Porque a sociedade estabeleceu os seus códigos de conduta, os seus símbolos, as suas “instituições”. São estes códigos, estes símbolos, estas “instituições” que sustentam a vida em sociedade e não vale a pena questioná-los por cálculo racionalista. Acabamos por chegar a conclusões francamente lunáticas.

Se o casamento passasse a ser um mero contrato baseado no afecto (a visão sentimental da tribo), não haveria nenhuma razão substancial para impedir todas as formas possíveis de casamento: entre pais e filhos; entre irmãos; entre duas mulheres e um homem; entre uma mulher e vários homens; etc.
É justo que duas pessoas do mesmo sexo que partilham uma vida em comum possam assegurar certos direitos sucessórios ou fiscais.

Não é justo desmontar o casamento tradicional para acomodar o capricho de uns quantos. Pior: o gesto apenas abriria uma nova forma de “discriminação” sobre todos os outros – pais e filhos; irmãos; duas mulheres e um homem; uma mulher e vários homens – que são deixados injustamente à porta do matrimónio.

Tenham juízo e, já agora, portem-se como homenzinhos.

Por João Pereira Coutinho – in Expresso

Quinta-feira, Dezembro 31, 2009



Publico agora uma resposta ao artigo mas, principalmente ao dono do blogue, o qual me apraz ler e me parece que aqui deixou falar o coração e esqueceu-se de muitos volumes de história e biologia existentes nas bibliotecas, universidades e outras instituições cientificas.


Correcção dos muitos erros deste texto.

"Não (não existem casamentos entre indivíduos do mesmo sexo em nenhuma religião)"


Errado. Existe na Igreja da  Suécia pelo menos e só assim de repente. Certamente se olhar por uns milhares de anos de história se encontraria outros casos. Mas logo há partida está errado porque existe pelo menos uma.

"Não (não existem casamentos entre indivíduos do mesmo sexo em nenhuma civilização)"


Pensava que civilização ocidental, a existir, era só uma e algo contemporâneo.  Nunca no passado houve uma única civilização ocidental. E a existir é, onde começa e onde acaba? Ainda ninguém disse isso. Mas, mesmo aceitando taxativamente a questão de que nunca houve casamentos entre indivíduos do mesmo sexo em nenhuma civilização, há que referir que já houve coisas piores. Casamentos entre pais e filhas, irmão e irmã (assim de repente lembro logo de Cleopatra e do seu irmão pré-adolescente de quem teve um filho) e podia continuar. Coisas mais estranhas aconteciam ainda na idade média nos meandros da Igreja Católica e ainda acontecem agora nas paróquias e seminários e num dos paraísos Católicos que é a Irlanda com a pedofilia e tal e coisa. Por isso é divertidissimo ouvir pregar sermões e moralismo de quem não o tem. Mas adiante, próximo ponto.

"Certamente não há no Reino Animal situações de acasalamento entre indivíduos do mesmo sexo."


Cego é quem não quer ver, de facto. Desde pinguins (do mesmo sexo) a criarem ovos juntos até golfinhos machos a praticarem coito entre si, passando por macacos, chimpanzés, cães e tudo o mais, casos de homossexualidade na natureza documentados é coisa que não falta. Existe para todo o tipo e feitio. Desde ligações ocasionais até ligações para a vida.

"Se, por mera hipótese, eu pretendesse casar com duas mulheres, estaria impedido pela força da lei. Não será isto uma “discriminação”?

Por que motivo o Estado impede que três adultos que se amam possam construir uma família em conjunto?"


Provavelmente elas ou se amariam uma à outra e então seriam lésbicas e não quereriam casar com o homem em questão, ou então não quereriam casar uma com a outra mas sim com o homem e não quereriam, certamente, partilhá-lo com outra concorrente. Raciocínio auto-destrutivo este do autor e perfeitamente demagógico.


"Se o casamento passasse a ser um mero contrato baseado no afecto (a visão sentimental da tribo), não haveria nenhuma razão substancial para impedir todas as formas possíveis de casamento: entre pais e filhos; entre irmãos; entre duas mulheres e um homem; entre uma mulher e vários homens; etc."


Tanto não havia que não nos faltam casos desses perante toda a nossa história. Basta olhar para as famílias reais europeias. Não é preciso ir mais longe. Não me lembro de haver indignação na altura por parte da Igreja Católica nem dos Católicos de então. Hoje também não vejo grandes condenações dos factos.

"Não é justo desmontar o casamento tradicional para acomodar o capricho de uns quantos."


Que casamento tradicional? O que é isso? É que o casamento já sofreu mais alterações por essa história fora que já se lhe perdeu a conta. Quem escreve isto só pode ser um perfeito ignorante. Ainda no século XIX o casamento era visto de forma diferente. Não era algo feito por amor. Haviam os casamentos arranjados em que as mulheres não era mais nem menos que um bem a transaccionar e que ficaria submetido à vontade do homem. Por isso  juízo tenha é quem escreve isto.


José Cerca, respeito a sua opinião, mas devia ter mais cuidado com o que publica. Uma coisa são opiniões outra são mentiras e demagogias. Eu consigo pensar em várias razões pelas quais as pessoas possam ser contra o casamento e algumas já eu próprio as referi e concordo. Agora há que ter cuidado com o que se diz e, sobretudo, se reproduz. Isto é um desses casos.

Cumprimentos.


Mais poderia ser dito mas fico-me por aqui. O que digo agora é em geral.

Espanta-me contudo a ignorância que por aí anda e, ainda mais, o facto de se andar com estes problemas todos por razões não históricas, não culturais sequer mas semânticas. Se em vez de casamento lhe tivessem chamado "A coisa que é igual ao casamento mas não pode ser chamada como tal por que não se gosta" ninguém teria sequer falado. Ou isso ou então teriam arranjado outro problema qualquer como o fizeram nas Uniões de Facto. Quando se tenta disfarçar problemas do foro das fobias e ódios irracionais invocando razões históricas, culturais e de tradição, geralmente dá barraca. Facilmente se destroem argumentos e põe-se a nu a verdadeira razão das coisas. Facilmente se percebe que o problema está no que alguns senhores, que julgam ser detentores da verdade, e que invocam livros que apelam à discriminação das mulheres, negros e muitos mais, de livros que apelam à pena de morte por apedrejamento e por aí fora. Senhores que nem eles próprios acreditam naquilo que dizem e apenas o dizem por razões que se prendem com o seu próprio amor ao poder.

2 comments:

Lelé Batita said...

J. P. Coutinho, nunca foi ao campo. Nem ao Jardim Zoológico.
Felizes dos que se encerram numa torre de marfim e são capazes de chamar anormais aos outros.
Por essa ordem de ideias a Natureza e a História está desde tempos imemoriais recheada de “erros”!
Não nos esqueçamos que é da diversidade que nasce a riqueza da cultura humana ao longo dos tempos.
J. P. Coutinho é não só ignorante, como arrogante.
Estou decepcionada com a cobertura que o José Cerca deu a este monte de disparates.

Elenáro said...

Somos dois Lelé. :(